Porque é que os livros bons acabam mal?

Desde que aprendi a ler que tenho lido muita coisa.

Comecei com os contos infantis, depois “Uma Aventura”, “Triângulo Jota”, literatura “infanto/juvenil” e por aí fora até ao livro mais recente (“Tess of the D’Urberville”).

Já li uma catrefada valente de coisas. Boas e más. Acho que com certeza, muito mais boas que más. Mas nos últimos tempos, principalmente nas minhas leituras de quarentena tenho chegado a uma conclusão assustadora: os melhores livros, isto é, aqueles que na minha humilde opinião são os mais bem escritos, acabam, na maior parte das vezes, mal.

Fazendo um pequeno balanço do que li em 2020:

[podes saltar se não queres ler a lista de alguém que anda com muito tempo livre]

  • A River Runs Again” – o.k., o ano até começou bem, um livro sobre projectos ambientais na Índia traz uma nota de esperança, parece que nem tudo está perdido;
  • The God of Small Things” – primeiro murro no estômago do ano: livro belíssimo, incrivelmente bem escrito e que nos deixa à beira dum desgosto amoroso eterno;
  • Midnight’s Children” – período da “emergência” na Índia, definitivamente não era a melhor altura para viver na Índia. Já dava pra ver que 2020 ia ser especial;
  • Heat and Dust” – a história acaba bem, o livro é mau;
  • O Ministério da Felicidade Suprema” – o título engana, Arundhati Roy (a autora) sabe como contar histórias de amor maravilhosas enquanto mostra como o mundo é cruel e destrói essas histórias em meia dúzia de capítulos;
  • The Colour of Magic”/”Light Fantastic” – graças a deus pela fantasia para dar um bocado de esperança, ainda que seja num planeta em forma de disco em cima de 4 paquidermes em cima de uma tartaruga (ver logo do blog para maior clareza);
  • Épico de Gilgames” – obra mais antiga recuperada da humanidade, não está mau e ninguém espera que um épico acabe muito bem – deuses e humanos, a modos que nunca acaba bem pro nosso lado, né?;
  • *Os Lusíadas” – é preciso comentar sobre os resultados da colonização??!!:
  • As Mil e Uma Noites” – só li o primeiro volume e Sheharazade continua viva. Nota positiva;
  • Romance do Genji” – acaba mal, mas Murasaki escreve tão bem que a única tragédia é aqueles japoneses terem-se perdido para sempre;
  • Cândido ou o Optimismo” – como o melhoral: nem está bom nem está mal;
  • Ficciones” – arruinou o meu cérebro tal como o conhecia, está a recuperar desde Junho;
  • East, West” – Salman Rushdie não escreve propriamente “feel good books”;
  • The Interpreter of Maladies” – vida de emigrante não é fácil;
  • Death and the King’s Horseman” – mais uma vez colonização…;
  • O Meu Nome é Vermelho” – nhaaa;
  • A Vida Mentirosa dos Adultos” – acaba bem acho eu…!;
  • Tess of the D’Urberville“, estou frustrada até hoje, apetece-me bater na Tess e no Thomas Hardy e em todos os idiotas que lixam a vida da Tess no livro e que acham que “a negative is only the preface of an affirmative“.

E isto é só uma amostra.

Sempre que penso em livros bons, que me ficaram na memória, raramente são histórias felizes: “O Auto dos Danados”, “Manual dos Inquisidores”, “Ensaio sobre a Cegueira”, “The English Patient”… Eça acho que não consegue recuperar do drama dos “Maias” no resto da obra! Ok, Luís Sepúlveda oferece-nos alguma salvação… De memória só a obra de Jane Austen e o “Jane Eyre” se escapam. E a obra de Umberto Eco talvez… E ainda não li muitos autores russos, mas receio que não venha muito folguedo daqueles lados…!

Imagino que haja um certo cliché no “e viveram felizes para sempre” que os bons escritores tendem a evitar.

Nem de propósito, enquanto estava a escrever este post vi esta citação:

The negative just makes for a better story: the plane was delayed, an infection set in, outlaws arrived and reduced the schoolhouse to ashes. Happiness is harder to put in words.”

David Sedaris

E, sim, parece-me lógico. Mas não podem limitar-se a usar a tristeza para desenvolver a história? Mas depois, lá pro fim, pôr um bocado de Betadine e dar um beijinho na ferida? Deus sabe como precisamos de um beijinho na ferida de 2020! E a julgar por este começo, em 2021 também!

Eu não peço que todos os livros acabem com Elizabeth Bennet e Mr. Darcy casadinhos de fresco, mas podem fazer com que nos apeteça viver mais um bocado?

Para as pessoas que dependem da literatura como Xanax, o que é que fazemos agora?! Leio o jornal? COVID/VACINAS/ANTI-VACINAS/ETC. Cinema? O último filme que vi foi o “Listen”… também não tamos num mood “feel good”. Música? Ok, há esperança.. mas eu sei que vou sempre precisar de bons livros. Por isso:

Alguém que esteja a ler isto e esteja a pensar em escrever um livro, por favor, lembre-se de nós, os leitores que precisam de um bocadinho de esperança em forma de linhas de texto:

E ESCREVA UM LIVRO BOM COM UM FINAL FELIZ.

OBRIGADA.

Eu vou tratar de escrever um ano com um final feliz.

4 pensamentos sobre “Porque é que os livros bons acabam mal?

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